Estudo e Escola

Da EJA à faculdade: estudar entre entregas em São Paulo

RRedação · 05/10/20264 min de leitura
Editorial

Em maio de 2023, um trabalhador de entregas em São Paulo descreveu uma rotina dividida entre serviços fixos, corridas nos fins de semana e uma graduação em relações internacionais. Antes da faculdade, havia concluído o ensino médio pela Educação de Jovens e Adultos. A sequência é registrada em uma entrevista publicada por uma agência de jornalismo das periferias.

Não há nessa trajetória uma troca instantânea de uniforme ou uma passagem definitiva de uma vida para outra. O trabalho de entrega continuava presente. O curso superior também. Ao contar como se organizava naquele momento, o entrevistado afirmou que fazia entregas principalmente aos sábados e domingos, além de prestar serviços fixos. A faculdade entrava nessa combinação concreta de ocupações.

Nascido em Arujá, na Grande São Paulo, ele circulava entre o extremo leste da capital e o centro. A publicação situa seu vínculo com a periferia e com a região do Alto Tietê. A dificuldade de garantir moradia, pagar aluguel e obter renda aparece no relato como parte do contexto em que cresceu sua participação em movimentos sociais. Não há informação suficiente para reconstruir todos os empregos anteriores ou atribuir uma renda mensal ao estudante.

O ingresso nas entregas ocorreu em 2019. Ele estava desempregado e precisava voltar ao mercado de trabalho. A oportunidade apareceu em um período que o entrevistado descreveu como de crise. O primeiro objetivo era conseguir trabalho; o contato com outros entregadores passou a inserir essa ocupação em uma discussão coletiva sobre condições de serviço.

No ano seguinte, dois atos marcaram sua experiência: o de 1º de julho de 2020 e o de 25 de julho. Na entrevista, ele associa essas mobilizações ao fortalecimento da organização da categoria. Não é preciso transformar sua participação em uma liderança inventada, nem atribuir a ele a autoria dos protestos. O registro permite dizer que participou e passou a integrar a discussão sobre remuneração, respeito e direitos.

Quando a entrevista foi publicada, as reivindicações que apresentou incluíam um piso por hora trabalhada, um valor mínimo por entrega e uma remuneração adicional por distância. São propostas de uma mobilização, não comprovantes do que recebia em cada corrida. A distinção importa: uma pauta defendida publicamente não equivale a um direito já aplicado ou a uma renda assegurada.

A passagem pela EJA aparece dentro desse percurso, e não em um discurso abstrato de superação. Ele terminou o ensino médio por essa modalidade e depois ingressou no ensino superior privado. O texto não informa o ano de cada matrícula, a instituição frequentada ou a etapa da graduação. Também não registra uma conclusão do curso. O ponto documentado é a chegada à faculdade e a continuidade das entregas durante os estudos.

Essa combinação permite observar uma condição de acesso: entrar no ensino superior não elimina necessariamente a necessidade de organizar a semana em torno do trabalho. No caso descrito, o estudante seguia prestando serviços e reservava parte dos fins de semana às entregas. A reportagem não apresenta essa rotina como método recomendado a todos, mas como a forma de conciliação que ele relatou.

O entrevistado defendia ainda que trabalhadores tivessem qualidade de vida, tempo e reconhecimento. Essa posição acompanha o percurso escolar porque amplia a questão para além da matrícula. Um curso exige permanência; uma ocupação fornece renda; a organização coletiva discute as condições em que ambas podem coexistir.

O registro de 2023 encerra-se sem diploma universitário anunciado e sem abandono das entregas. Há um ensino médio concluído, uma graduação em andamento e um trabalhador que continuava a circular pela cidade. Para conhecer essa história, basta manter juntos esses fatos, sem acrescentar um final que a reportagem não trouxe.

Fontes consultadas

Confira a origem e os créditos deste texto. A data da fonte é diferente da data de publicação no nosso site.

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